Penas do Pio

Poesia Missioneira

suporte do blog - Ricardo Kraemer Medeiros (Pio)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009















Teus Olhos

Aqueles olhos pequenos
Frutos doces da pitanga
Um dia o vento trouxe
Tramela nunca foi tranca
Semeara alegria
Forte abraço ventania
Naquele que algo encanta.

Raízes foram formando
Frondosa copa ardor
Fogo nunca foi a dor
Rara seiva esperança
Labaredas devoravam
Entorno de uma dança
Estas almas furtivas
Doces, belas e brandas.
Letal esta arma branca
Profundo talho de amor

Ora esta juventude
Coração nunca semente
Somente seus argumentos
Compreender o penar
Correr brincar gritar
Velho guri ficar
Serelepe por aí
Isto carrego no olhar

Agora teus olhos passam
Meus olhos sempre a lembrar
Todo aquele encanto
Um dia o vento levar
Se chover três dias fortes
Minuano vai chegar
Talvez por amor tão grande
Pingou suas magoas constantes
Partiu, profundo amar.


Neste dias de passagens
não esquecemos direito
desejamos a você
chegue sempre com os ventos
aqueles sonhos perdidos
procurado nos mascados
que tenha sempre do lado
estes poemas compreendidos
não por ser mais um amigo
ser um sonho, ser latente
nunca desistir desta gente
que tem coração antigo.

domingo, 22 de novembro de 2009

Noite de Sol

Chinoca escambo de amoras

Escoltado por roseiras

Doce a qualquer hora

Esculpida na beleza

Em brasa sua pele viva

Abrindo poros desejos

Tranco forte pelas ancas

Vergando a prenda na mesa.

.

Chitas floridas rasgadas

Duas almas junto ao céu

Soluçam favos de mel

Gemendo sombras faceiras

Sentem o calor de fogueira

Por tal fato atrevido

Atentado ao indivíduo

Soltar-se na ribanceira.

.

Pescoço moldado a beijos

Suspiros de ventania

Curvas desta guria

Remetem ao infinito

Pelegos palas aflitos

Vigiados pela lua

Pele nua sempre sua

Forjando um só atrito.

.

Lábios gomos de açúcar

Seios vertentes com sede

Abraços fortes carentes

Aquecem nas madrugadas

Suas melenas encantadas

Tinha impressão um bailar

Em barco indo pro mar

Corredeiras de Mercedes

.

Galos sabiás canários

Despertar em nobre ninho

Anjos espalham carinhos

Limpando trilhas do dia

Gaudério com serventia

Não vive só do amar

Tem que sempre labutar

Rancho espera na alegria.

.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009



Lábios de Pitanga



Pitangueira estradeira

Impossível segurar

Frutos que dela caem

Novas estradas adoçar

.


Suco que de ti brota

Transformando doces lábios

Não permitindo que o taura

Passe sede em teu costado.

.


Gomos que tu possui

Escondidos de mim

Frestas em galhos fortes

No alto alcanço sim.

.

Sombra fresca retorcida

Saciou um tempo guri

Bodoques tuas forquilhas

Caminhos que eu segui

.

Hoje retorno a querência

Sombreado de pitangueiras

Ainda procuro com alma

Minha doce estradeira.



Extraviados

Na estância apareceu guaxo

Enrolado em uns trapos

Berrava mais que boi sapo

Anunciando o intento

Nasceu com seus lamentos

Abandonado em pelegos

Demonstrou coragem a medo

Bandida atitude andejo.

*

Recolhemos o extraviado

Levamos calor do rancho

Mangerona fogo em canto

Sem encarangar os pelos

Pensar possuir dois selos

Temos tudo nesta vida

Pai e Mãe sem tais feridas

Nascer jogado em barrancos

*

Já dizia santo homem

Pai quem cria nesta vida

Risadas muitas folias

Corria daqui pra lá

Quebrava vidros, sabiás

Bagunçando tudo as favas

Não imperando anarquia

Silencio em casa não dá..

*

Cresceu piá, se fez rapaz

Agarrou rumo do povo

Estudos estão por lá

Saudade é de amargar

Ficamos nós nestes fundos

Aguardamos nos segundos

As voltas que o mundo dá

Ah! que a saudade se vá

Do guri que cruzou mundo.

*

Um dia avistei poeira

Percebi agitação

Coração salta na orelha

Guaxo voltou rincão

Mamar mãe natureza

Que nunca abandonou

Largados pelas porteiras

Que um dia alguém juntou.

*

Apeou forte bonito

Doutor grau ele colou

Anunciava quatro ventos

Reverencia a quem salvou

Comprou fazenda Figueira

Aquele peão o criou

Ficou senhor da estância

Terra que lhe gerou.





Lida





A sombra da noite escura



Reflete o tombo



Meu coração solitário



Sempre se ergueu



Grito do quero-quero



Ouviu-se ao longe



Trazendo as novas penas



Amanheceu



.



Orvalho encharca o pasto



Sacia a sede



Terra geada braba enrijeceu



O coração do gaudério



Tosco e sem rumo



Tentiando aquecer o peito



Amores seus.



.



Amargo sorvido em tragos



Chaleira na brasa chia



chinoca bota café



Pão com mel, muita chimia



Sorriso largo peonada



Traçando rumos do dia



Voltar pro rancho correndo



Somente pra ver Maria



.



No tranco destes meus dias ensolarados



Carrego dentro do peito, minhas verdades



Revisto tropas da vida pelas mangueiras


Entardecer quando chega, junto saudades.

domingo, 8 de novembro de 2009




Carreteiro de Charque



Amanheceu dia encanto
Passarada destemida
Decerto toque de Midas
Tudo reluz na campanha
Sol que nasce na manhã
Mirando quem vem na frente
Cruzando o dia contente
Pelos campos, pelas sangas.
.
Chaira que escuta forte
Adaga aço tesouras
Cortaram muita lã boa
Seqüência desta tal lida
Hoje assumem destemidas
Profundo corte na carne
Preparo de fartas mantas
Cedo até fim da tarde
.

Gado enfileirado
Carne sempre de primeira
Tendéu não é brincadeira
Estouro desta boiada
Passa a faca, enfia adaga
Sangue sova terra rasa
Lutas de fortes quéras
Bagos sempre na brasa

.
Verga peso do charque
Sal que luta com suor
Enxuga carne de sol
Preparo exímio saber
Sempre vão abastecer
Ganchos pelas paredes
Nacos iguaria cortados
Saciar nossos prazeres.
.
Arroz da casca crioula
Banha algum capincho
Rastros deste instinto
Panela de ferro atrai
Fogo não se distrai
Geme forte até arder
Impressão ele querer
Bailar lá no Sapucai
.

Pão milho da roça
Garapa cana do braço
Cachaça branca laçasso
Acompanham ritual
Não me levando a mal
Sorvia amargo brejeiro
Lembrando amores costeiros
Coração adoçou sal.
.
Completamos nosso rito
Tarde com sono finda
Arvoredos varas finas
Passarada balançava
Gente boa, tudo em casa.
Preparando seus miangues
Amanhã bem cedo partem
Carretas desta charqueada..

sábado, 7 de novembro de 2009

Muralhas Missioneiras



Resquícios de uma muralha

Encontramos nas pastagens

Elas refletem a imagem

Tempos de rejeição

Fortes cravados no chão

Esboçam as amarguras

Erguidas com pedras duras

Alturas da ingratidão.

-

Contam negras histórias

De povo forte e valente

De tanta gente contente

Floresciam pelos pagos

Bebendo trago a trago

Sucos de uma cultura

Veio forte tropas sujas

Dizimar toda uma gente

-

Percebemos nas ruinas

Alicerce de um povo

Retidão em suas formas

Capricho em tudo rima

Rejuntado com a sina

De nunca abandonar

Esta terra tem um dono

Que se chama liberdade.

-

Parado beira da sombra

Amoitado sobre a cerca

Vejo lageado correndo

Fundos de nossos campos

Muralhas e seus encantos

Perpetuaram com gloria

Construtores na memória

Cerca viva pedra encanto

-

Pequena forte altura

Basta ser a divisão

Cheia de musgos então

Floridas em toda parte

Muralhas tu não voltaste

Cercas pedras vastidão

Apenas divida caminhos

Nenhum dele solidão

Avenidas Desconhecidas.




Em nossas caminhadas


Que estradas virão


Rua desconhecidas


Sem luzes,na contramão


Não podemos desistir


De enfrentar desilusão


Temos de percorrer


Estradas do coração




Tantos caminhos perdidos


Tantas pontes derrubadas


Mas resta nesta invernada


Pinguelas para passar


Se precisar vamos nadar


Não desistir nestas águas


Não levarão a mais nada


Somente magoas pro mar



Também confesso a ti


Meus rumos são tão incertos


Espinhos,pregos por perto


Ilusão em um sentir


Vamos virar isto aqui


Irmanados na labuta


Juntando nossos esforços


Sermos oásis aqui..

Abuchinchando


Abuchinchando o ambiente

Entro de canto na sala

Luz de candeeiro exala

Forte perfume das chinas

Me perdi em minha sina

Mal cheguei a balbuciar

Veio moça me agarrar

Dancei xote com a menina

*

Barbaresca esta névoa

Poeiras pitos fumaça

Quem não reza acha graça

Deste mundo escondido

Nos fundos do paraíso

Canto chucro pela noite

Impressão gato no coice

Bandonion com seus gemidos

*

Ponta de dedos viola

Rebuliço era gigante

Pequenos , ate os grandes

Dançando com suas prendas

Ruivas, brancas e morenas

Sonhavam em ombros toscos

Dali saíam no enrosco

Se amoitar pela fazenda

*

Eu que estava fincado

Bolixo bebendo canha

Tentiava tigra bonita

Sorria sem mais ter fim

Percebi um ser jasmim

Balaço em seu olhar

Quando seus cílios baixaram

Cravaram flechas em mim

*

Bela surgiu na cortina

Virei um cusco de arrasto

Faminto terneiro guaxo

O trago era dos fortes

Me segurei, tenho norte

Respirei, contei também

Deixei que aquele feitiço

Me carregasse pro além

*

Se boleou para meu lado

Estremecemos os dois

Não deixamos pra depois

A carreira estava atada

Nossas almas com anseios

Acolhi o corpo frágil

Enquanto seus belos seios

Represavam as vontades

*

Senti maldade bandida

Morena coração judiado

Ela não teve pena

Angustia, pobre de mim

Sabendo sempre do fim

Escreveu um só bilhete

Te vejo em algum baile

Um dia cuidará jasmim.